Made in Abyss: O Inferno Vestido de Encanto

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Made in Abyss

Made in Abyss narra a jornada de Riko e Reg pelas profundezas de um misterioso abismo. Enfrentando perigos físicos e psicológicos, a série explora temas como perda, sacrifício, conhecimento e transformação. Com visual encantador e enredo sombrio, é uma reflexão poética sobre humanidade, dor e a busca pelo desconhecido.

1. A dualidade da inocência e da brutalidade

Talvez o aspecto mais marcante de Made in Abyss seja o choque entre a aparência visual “fofa” e a narrativa extremamente sombria e madura. O design dos personagens remete a crianças de histórias infantis, mas o mundo que eles exploram é cruel, imprevisível e, muitas vezes, fatal. Essa dualidade reforça a perda da inocência, principalmente por parte da protagonista Riko, que mesmo com seu espírito aventureiro e infantil, é forçada a confrontar verdades brutais sobre si, o mundo e a natureza humana.

2. O abismo como metáfora da jornada interior

O Abyss não é apenas um cenário. Ele é uma metáfora viva para a descida ao inconsciente, à dor, ao desconhecido e ao autoconhecimento. Cada nível representa um desafio mais profundo, físico e psicológico, refletindo as camadas da psique humana, como na jornada do herói clássico ou nos arquétipos junguianos. Quanto mais fundo os personagens descem, mais são confrontados com dilemas morais, experiências traumáticas e transformações irreversíveis.

3. A ética do sacrifício e da ciência

Um dos temas mais perturbadores é o uso da ciência e da experimentação sob a justificativa de avanço ou sobrevivência. O personagem Bondrewd, por exemplo, representa o cientista que ultrapassa limites éticos, acreditando que o sofrimento alheio é um preço justificável para o conhecimento. A obra questiona constantemente: “até que ponto o conhecimento vale o custo?” e “há limites para o que pode ser feito em nome do progresso?”

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4. A inevitabilidade do sofrimento e da morte

Em Made in Abyss, o sofrimento é constante e inevitável. A obra mostra que a dor é uma parte essencial do crescimento, tanto físico quanto espiritual. Personagens morrem de forma brutal e inesperada, reforçando a impermanência da vida e a natureza incontrolável do mundo. Isso gera uma sensação de realismo cruel, mesmo em um universo fantástico.

5. Companheirismo e resiliência

Apesar do tom sombrio, o anime também valoriza profundamente a amizade, a solidariedade e o companheirismo. Riko, Reg e Nanachi compartilham traumas, dores e esperanças, criando laços inquebráveis. A força emocional do trio representa a capacidade humana de resistir ao horror quando se está acompanhado, mostrando que mesmo no abismo mais escuro, pode-se encontrar luz nos vínculos sinceros.

6. A curiosidade como impulso vital

Riko é movida pela curiosidade — uma curiosidade quase insana — que a leva a abandonar a segurança da superfície para enfrentar o desconhecido. Made in Abyss retrata a curiosidade humana como força motriz, mas também como elemento trágico. A busca pela verdade, pela origem, pela mãe — tudo está envolto na ideia de que o desejo de saber pode ser tão perigoso quanto necessário.


1. O abismo nietzschiano e a vontade de potência

Friedrich Nietzsche escreveu:

“Se você olhar por muito tempo para um abismo, o abismo também olha para você.” (Além do Bem e do Mal)



Essa frase, portanto, encaixa-se perfeitamente na proposta do anime. A descida ao Abyss é, ao mesmo tempo, literal e metafórica. À medida que os personagens encaram o desconhecido, esse mesmo desconhecido os encara de volta, forçando cada um a confrontar sua própria essência, seus limites, traumas e desejos mais primitivos. Além disso, esse processo se conecta diretamente ao conceito de vontade de potência: a força interna que impulsiona os indivíduos a superar a si mesmos. Nesse contexto, Riko, Reg e Nanachi enfrentam constantemente situações que exigem a superação de limites — físicos, emocionais e morais — para continuarem avançando. Por fim, o abismo se revela como o verdadeiro palco da auto-superação nietzschiana, onde sobreviver torna-se, inevitavelmente, um ato de transcendência.

2. O inconsciente junguiano: o abismo como símbolo da alma

Para Carl Jung, a jornada ao “submundo” é uma metáfora da descida ao inconsciente coletivo e pessoal. O Abyss representa as profundezas da psique humana. Cada nível é uma camada mais profunda do inconsciente, com símbolos arquetípicos, traumas ocultos e horrores reprimidos.

Reg representa o Self mecânico, uma dualidade entre humanidade e maquinização — como o homem lida com suas emoções frente ao desconhecido.

Nanachi representa o trauma psicológico e o arquétipo do “curador ferido” — aquele que ajuda os outros a superar suas dores mesmo carregando uma carga insuportável.

O próprio Abyss é o umbra mundi, o “mundo das sombras”, onde os indivíduos são testados em sua essência.


3. O absurdo de Camus: continuar apesar do sofrimento

Albert Camus escreveu sobre o absurdo da existência — a ideia de que a vida não tem um sentido intrínseco, mas ainda assim, escolhemos continuar. Isso se reflete profundamente na trajetória de Riko: ela escolhe continuar a descer, mesmo sabendo que não há retorno e que cada passo significa mais dor. Ela não age por heroísmo clássico, mas por uma fé inocente e absurda no valor da busca.

Assim como o mito de Sísifo, Riko sabe que não há recompensa clara no fim do caminho — mas persiste, o que faz de sua jornada um ato de resistência contra o niilismo. Made in Abyss, nesse sentido, é um manifesto sobre a força da existência diante do sofrimento inevitável.

Ponto Extra: O Abismo como ciclo de renascimento e degeneração

O Abyss é um útero e um túmulo ao mesmo tempo. Ele gera vida — criaturas únicas, tecnologias perdidas, civilizações esquecidas — e consome tudo que toca. O abismo “devolve” corpos, modifica-os, transforma os que descem (como Nanachi e Mitty) em novas formas de existência. O processo de “amaldiçoamento” de quem tenta retornar é quase um parto reverso: o mundo rejeita o que tenta escapar das profundezas, como se dissesse: “Você não pertence mais à superfície.”

Isso reforça a ideia de que descer é também morrer para o que se era antes, e renascer como algo novo — às vezes de forma bela, outras vezes de forma monstruosa.

Made in Abyss


Made in Abyss é, ao mesmo tempo, um conto de fantasia sombria e um tratado simbólico sobre a alma humana. Sua narrativa vertical — uma descida física e espiritual — nos reconecta com o mito ancestral da katabasis, a jornada ao submundo. Mas aqui, o submundo é também o inconsciente, o sofrimento, o desejo e o sagrado.

A obra retrata o Abismo como espelho do ser. Cada nível mergulha não apenas os personagens, mas o espectador, em camadas profundas de questionamento:
Quem somos quando deixamos para trás as convenções? O que resta quando o corpo e a ética se desintegram em nome da verdade?

Nietzsche nos adverte:

“Quando você olha para o abismo, o abismo olha de volta para você.”

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Essa reflexão se desdobra em cada transformação corporal e espiritual vivida pelos protagonistas, sobretudo em experiências-limite como as de Nanachi, Prushka e Faputa — onde amor e dor são indissociáveis.

A série também ecoa a jornada do herói de Campbell e os arquétipos de Jung: o mentor ferido, a sombra incorporada, a descida à caverna interior. Reg é o animus-máquina que sente. Nanachi é a sombra que carrega compaixão. Riko é o ego que busca, mesmo diante do irreversível.

Simone Weil resume o espírito da obra:

“A dor é a única força que obriga a alma a se voltar completamente para si mesma.”

Made in Abyss revela que conhecer exige perda — da inocência, da forma, do outro. Mas é nessa perda que se revela a essência: aquilo que, mesmo deformado, ainda persiste como humano.

A trajetória dos personagens não é apenas física. É uma busca por transcendência, onde a morte simbólica do ego permite vislumbrar algo além da compreensão — talvez o Self, talvez o vazio. Como Camus propõe,

“O verdadeiro salto filosófico é aceitar o absurdo sem apelo.”

No fim, o Abismo não oferece respostas fáceis.
Ele convida. Provoca. Deforma. E, se formos corajosos o bastante, transforma.

Porque quem ousa descer ao Abismo… pode não voltar igual.
Mas talvez volte inteiro — ainda que ferido, mais verdadeiro.

Leia a nossa resenha sobre esse anime!

Acesse mais informações sobre o anime Made in Abyss no My Anime List!

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0 comentário em “Made in Abyss: O Inferno Vestido de Encanto”

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